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O lixo no Distrito Federal: muita produção, pouco reaproveitamento

Brasilienses são os que mais produzem lixo de maneira individual em todo o país. Cada habitante descarta, em média, 1,5kg por dia

Foto: Wilson Dias - Agência Brasil

Falta de preocupação com a quantidade de resíduos produzida pelo consumo, descarte inadequado e pouca contribuição na coleta seletiva são algumas das características dos brasilienses quando o assunto é lixo. Nos primeiros seis meses de 2019, apenas 12,39% das quase 400 mil toneladas de resíduos coletadas pelo Sistema de Limpeza Urbana (SLU) foram recuperadas. A quantidade foi semelhante ao mesmo processo em 2018, quando houve a recuperação de 11,37% do total de resíduos produzidos naquele ano.

 

Esses números chamam ainda mais atenção quando o assunto é o tipo de resíduo que foi reaproveitado. É que a maior parte do material que voltou a ser inserido na sociedade corresponde aos compostos orgânicos, coletados mesmo quando não há muito cuidado com o condicionamento do lixo por parte da população. Se eles forem retirados da conta, a quantidade de materiais que foram encaminhadas para a reciclagem e efetivamente reaproveitados em 2019 cai para 3,65%. 

 

A porcentagem é preocupante ao pensar na grande quantidade de lixo produzida. Um levantamento do Instituto Lixo Zero Brasil, de 2018, aponta que Brasília é considerada a cidade que mais produz lixo em todo o país, sendo 4,5 toneladas por dia. A média é de 1,5kg de produção diária para cada morador da capital. Enquanto no Brasil, e no Distrito Federal (DF), a produção média diária é de 1kg por dia.

Foto: Wilson Dias - Agência Brasil

PROBLEMA INVISÍVEL

Segundo a pesquisadora Izabel Zanetti, do núcleo de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), a falta de atenção e cuidados com o lixo está relacionada à impressão de que o problema não existe. "As pessoas têm a ideia de que a partir do que coloco a sacolinha na frente da casa, no meu condomínio, eu não tenho mais nada a ver com isso. Mas acontece que o resíduo é esse material que sobra das minhas compras, do meu consumo, e eu também sou responsável por ele”, afirma. 

Além da responsabilidade pelo próprio consumo, Izabel Zanetti aponta que o tratamento adequado dos materiais traz diferentes tipos de benefícios, e está relacionado a outros três aspectos: os sociais, os econômicos e os de preservação ambiental.

 

"Há dimensão social, que do outro lado dos resíduos tem alguém que coleta, que são os catadores, balcões de triagem e suas famílias; a dimensão econômica, porque esse resíduo, ao invés de ir para o aterro sanitário, entra para a cadeira produtiva novamente, indo para a industria ser um novo material; e a dimensão ambiental, que é importantíssima. Deixamos de poluir nosso lençol freático, nosso solo, nosso ar".

 

De acordo com a doutora em Desenvolvimento Sustentável, entender esse contexto e a diferença entre lixo e resíduo são o primeiro passo para uma relação ideal com o descarte de materiais. Veja a seguir as características dos dois termos (passe o cursor pelos nomes):

Lixo

Material que não tem mais utilidade e deve ser jogado fora, como o caso de lixos de banheiro.

Resíduo

Material que pode ser reaproveitado na cadeia produtiva, como o plástico e compostos orgânicos.

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ENTENDENDO A QUESTÃO

Além de entender os fatores aos quais o lixo está envolvido, é necessário lembrar que os produtos jogado fora permanecem por perto, mesmo que não estejam à vista. O diretor de Comunicação e Mobilização do SLU, Marcio Gondino, explica:  “As pessoas acham que jogou fora e está resolvido, só que não existe fora. O fora é o aterro, e o aterro é dentro de Brasília”.

Atualmente, todo o lixo do Distrito Federal é encaminhado para o aterro sanitário, localizado em Samambaia. O espaço começou a funcionar em fevereiro de 2017. Na época, a expectativa era de que o local durasse por 13 anos, sendo necessário construir um novo lugar após. Mas uma quantidade de rejeitos que chegam ao aterro tem sido maior que o esperado, o que reduziu a vida útil do espaço para 10 anos.

Para mudar essa situação, Marcio explica que as medidas de tratamento estão relacionadas ao trabalho em duas frentes: diminuição da quantidade de produtos adquiridos, principalmente os de uso único –do tipo em que só se usa uma vez–, e maior consciência em torno do condicionamento do descarte, para que não haja contaminação de materiais* na hora de jogar produtos fora. Escute ao lado as explicações do representante do SLU sobre o assunto:

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sobre o consumo

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sobre Brasília

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sobre o aterro sanitário

*a contaminação ocorre quando há a mistura de lixos, resíduos e compostos orgânicos no momento do descarte. O contato entre os diferentes tipos de material prejudica o tratamento posterior de qualquer um dos componentes. Uma garrafa plástica, ao estar mal condicionada e suja com restos de comida, por exemplo, terá um processo de reciclagem mais complexo, e é mais provável que ela nem chegue a ser reaproveitada.

COLETA SELETIVA

No DF, uma das alternativas para diminuição do desperdício e reinserção de materiais é a coleta seletiva. O SLU é o principal intermediador nesse processo, atuando no recolhimento de resíduos de residências e empresas, auxiliando na triagem e no encaminhamento dos materiais para centros de coleta. Por meio de contratos, o Serviço de Limpeza Urbana estabelece relações com empresas, que fazem o transporte de resíduos, e com cooperativas, que trabalham na triagem e fazem a venda do material para a indústria.

Atualmente, os materiais que passam pelo processo de reciclagem no DF são: papel, papelão, plástico, isopor e metal. O vidro é um tipo de material que também pode ser reciclado, no entanto, não existem empresas que façam o tratamento deste produto** no Distrito Federal ou na região Centro-Oeste.

 

O SLU também faz uma triagem*** do descarte orgânico e aproveita parte dos alimentos jogados fora no lixo convencional para um processo de compostagem – quando há tratamento de resíduos orgânicos para que se tornem fertilizantes na agricultura –. Esse material é posteriormente direcionado para pequenos agricultores do DF, servindo de auxílio no processo de adubação de plantações.

Um dos maiores desafios relacionados à coleta seletiva, no entanto, é a participação popular. A maneira de descarte feita por moradores e empresas muitas vezes é incorreta, o que prejudica a efetividade da reciclagem e condições de trabalho de catadores.

**o vidro não é reciclado no DF, Atualmente, esse tipo de material é também encaminhado para o aterro sanitário, como se fosse rejeito. Vale lembrar que, apesar de não ter o apoio governamental, existem iniciativas que atuam para o reaproveitamento de vidro no DF, oferecendo o serviço de transporte para centros de reciclagem do material em São Paulo, ou no Rio de Janeiro.

Lucas Ximenes, responsável pelo centro de coleta do SLU no P Sul, em Ceilândia, explica:

***os centros de triagem são divididos de duas formas: 1) Instalações de Recuperação de Resíduos (IRRs), em centros de tratamento do SLU (são quatro em todo o DF),  

2) Em espaços de trabalho de cooperativas de catadores, que fazem o recolhimento e recebem suporte estrutural do SLU.

SAIBA MAIS SOBRE OS PÁTIOS DE COLETA

A reportagem acompanhou uma manhã no centro de triagem da Instalação de Recuperação de Resíduos do P Sul, em Ceilândia.  No local, cerca de 50 catadores se dividem para selecionar materiais para reciclagem que foram encaminhados pelo descarte de coleta seletiva do Distrito Federal.

São duas cooperativas que atuam nesse serviço no local: a Plasferro e a Coopere, selecionadas mediante um edital do SLU. Os dois grupos de catadores trabalhavam com a coleta seletiva desde o período em que o lixão da Estrutural estava em funcionamento. 

Cada uma das cooperativas recebe, diariamente, um caminhão de materiais recicláveis. Esse conteúdo é despejado em uma parte externa do local, onde alguns dos trabalhadores o colocam em esteiras que seguem para triagem dos demais catadores. Os resíduos ali colocados são redirecionados em uma divisão de materiais: plásticos, papel, alumínio, entre outros. Cada um é colocado em um recipiente próprio. Quando acumulados, são vendidos pelas próprias cooperativas. 

O dinheiro recebido é rateado entre os catadores de cada grupo. No caso da Plasferro, uma parte do dinheiro é revertida para a própria cooperativa, que faz investimentos como a contratação de um ônibus para levar e trazer os catadores da cidade Estrutural. 

Além do recebido pela venda de produtos, os catadores recebem por parte do governo uma quantia de R$ 360,75, como auxílio para a execução do trabalho. Como nem todo o material que chega ao centro de coleta está apto para a reciclagem, o valor final por mês para cada catador costuma ficar próximo a um salário mínimo, variando entre mais ou menos. Catadoras representantes as cooperativas falam um pouco sobre o trabalho nos vídeos a seguir:

Foto: Wilson Dias - Agência Brasil

Alguns registros de quando o lixão ainda estava em funcionamento. 

HISTÓRIA DO LIXO NO DF

A mudança em torno do lixo é recente na capital. Até o início de 2018, parte dos resíduos e lixo dos moradores do DF era direcionado para o Lixão da Estrutural, um depósito a céu aberto localizado na cidade Estrutural, região a 15 quilômetros do centro de Brasília.

 

O local, em funcionamento desde a década de 1960, parou de receber resíduos domésticos em fevereiro de 2018. Até então, era o maior depósito de lixo a céu aberto da América Latina, e considerado o segundo maior do mundo. O fechamento do espaço ocorreu mediante a transição do envio de lixo para o aterro sanitário em Samambaia.

Atualmente, o espaço recebe restos de obras e de entulho provenientes da construção civil. São aproximadamente 6 mil toneladas todos os dias. Os antigos resíduos agora são encaminhados para o Aterro Sanitário, em Samambaia.

LEGISLAÇÃO SOBRE O TEMA

Saiba sobre a principal legislação sobre o lixo no DF

(passe o cursor pelos nomes):

Política Nacional dos Resíduos 
Sólidos

Lei nº 12.305/10 organiza a legislação brasileira sobre a forma como o país deve lidar com o lixo. Exige que os setores públicos e privados tenham transparência no gerenciamento de resíduos, além de papéis para que todos os membros da sociedade tratem o tema

Lei dos Grandes Geradores

Lei nº 5.610, estabelece que pessoas físicas ou estabelecimentos que produzam mais de 120 litros de resíduos por dia devem se responsabilizar pelo descarte dos materiais

IPTU VERDE

Lei nº 5965, de 2017, estabelece que haja descontos no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para quem cumprir com meiddas de redução de consumo de recursos naturais e impactos ambientais. 

Foi aprovada, mas ainda não regulamentada

Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo pela Universidade de Brasília. 2019.
 Autora: Lis Gabriela de Almeida Cappi;
Orientadora: prof. Dra. Dione Oliveira Moura

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