*Grandes Geradores, como o próprio nome diz, são estabelecimentos que geram resíduos em grandes quantidades, como restaurantes, bares e hotéis. No Distrito Federal é estabelecido que espaços de comércio do tipo que produzam mais que 120 litros de lixo diariamente são responsáveis pela quantidade gerada, e devem cuidar do direcionamento final dos próprios materiais.
Novas perspectivas e negócios por meio do 'lixo'
Reaproveitamento de resíduos pode proporcionar impactos econômicos e sociais. Novos negócios são as principais alternativas
Pensar em abrir um negócio e ver a oportunidade em um eixo pouco explorado e com a possibilidade de alcançar um impacto socioambiental. Com essa perspectiva, novas empresas surgem ou se reinventam no Distrito Federal voltadas para o que seria "lixo". Desenvolvendo um trabalho que atende outros âmbitos sociais, além do realizado por catadores de materiais recicláveis (leia mais sobre eles aqui), novas empresas ganham cada vez mais espaço em Brasília, dando significado ao que seria jogado fora.
As opções são variadas, indo desde vendas direcionadas a um público preocupado com a questão ambiental, novas produções baseadas em resíduos que seriam jogados fora e podem voltar a ser aproveitados pela economia circular e as adequações à legislação, como o caso dos Grandes Geradores*, que podem trazer benefícios aos donos de estabelecimentos ao mesmo tempo em que motiva a criação de novos postos de trabalho para atender demandas de direcionamento dos descartes.
"Você voltando os resíduos para a Indústria, você está gerando novos empregos e não está passando essa responsabilidade para o estado, nem onerando o estado com isso", aponta o economista e representante do Instituto Lixo Zero Brasil Kadmo Côrtes.
Na mesma linha de pensamento, Kalleo Kopp, do Instituto em Brasília, aponta que as opções são variadas, e que os caminhos podem ser explorados por quem tiver boas ideias de negócio. "Tem muita coisa, e a gente acredita que o empreendedorismo é fundamental para isso. Esse movimento que a gente tem de compostagem, por exemplo, que vai desde startups a ONGs (Organizações não governamentais), e outras empresas. Eles viram um problema, e é pelo tanto que se perde, e criaram uma solução. A gente tem aí um nicho, uma oportunidade", diz.
*Grandes Geradores, como o próprio nome diz, são estabelecimentos que geram resíduos em grandes quantidades, como restaurantes, bares e hotéis. No Distrito Federal é estabelecido que espaços de comércio do tipo que produzam mais que 120 litros de lixo diariamente são responsáveis pela quantidade gerada, e devem cuidar do direcionamento final dos próprios materiais.
A CH4Bio
Foto: Lis Cappi

Nesse cenário, surgiu em 2017 a CH4Bio, dos engenheiros eletricistas Junnio Gomes e Iago Perroni. A dupla, que se conheceu na Universidade de Brasília, buscava uma forma para implementar serviços de biodigestores – equipamentos que produzem energia por meio de restos orgânicos – para empresas do DF. O processo inicial se mostrou mais difícil do que o esperado, e então os amigos optaram por em iniciar o trabalho com orgânicos pela compostagem.
Na época, o sistema de implantação de grandes geradores estava no início, e a obrigatoriedade em se tratar materiais orgânicos de grandes estabelecimentos impulsionou a entrada da CH4Bio no mercado local. Pouco mais de um ano depois, a equipe de trabalho, formada pelos dois engenheiros e dois ajudantes periódicos, se vê na posição de ter que contratar novas pessoas para conseguir dar conta de novos trabalhos. O grupo recolhe resíduos de 20 lugares, entre restaurantes, cafés, e pontos de coleta domiciliar, que juntos somam uma tonelada de orgânicos por dia, e trata os resíduos na sede da CH4Bio, no Lago Oeste.
COMPOSTAGEM?
Assim como é possível utilizar os frutos da compostagem em produções domésticas, há a possibilidade de realizar o tratamento dos restos orgânicos de maneira caseira. A prática pode diminuir, em até 50%, a quantidade de descarte individual enviada para o aterro sanitário.
as duas alternativas podem ser utilizadas de maneira doméstica
Também conhecida como "reciclagem do lixo orgânico", a compostagem dá esse nome ao processo que transforma a matéria orgânica
– na maioria dos casos, restos de alimentos – em adubo natural, que pode ser utilizado para nutrição de plantas, em jardins e na agricultura.
Na maioria dos casos, os nutrientes tratados podem substituir o uso de produtos químicos.
composteira seca
vermicompostagem (minhocas)
composteira doméstica
Saiba mais sobre o trabalho da CH4Bio
Foto: Lis Cappi

Sede da CH4Bio, no Lago Oeste. As "bambonas", em branco, são utilizadas para coletar compostos orgânicos dos estabelecimentos.
O INSTITUTO ECOZINHA
Do outro lado da regulamentação dos grandes geradores, estão restaurantes e grandes produtores de resíduo que se adaptam para dar a devida destinação aos materiais descartados nos negócios. Atuando como intermediador nesse processo, um projeto chama atenção em Brasília: o Instituto Ecozinha. Uma iniciativa sem fins lucrativos que busca mobilizar donos de empreendimentos para trabalhar a importância de atuação do setor de negócios em prol do meio ambiente e do tratamento adequado de resíduos.
A iniciativa começou em 2017, com o chefe dos restaurantes Dona Lenha, Paulo Mello. Sócio do ponto gastronômico, Paulo buscava promover os devidos fins para o que era produzido nos estabelecimentos, em uma ideia de que "não é necessário ser um grande gerador". A atuação local levou a uma conscientização coletiva e deu início ao projeto que deixa de lado a concorrência para um pensar conjunto em relação aos resíduos. É atualmente o único do tipo no Brasil.
Foto: Bernardo Paixão

Paulo Mello, fundador do Instituto Ecozinha
Foto: Lis Cappi
Como funciona na prática?
A divisão de resíduos do Dona Lenha, e a recomendada para outros estabelecimentos, é a separação em quatro frações: orgânicos, que são compostados; vidro, que é enviado para ser reciclado em São Paulo ou no Rio de Janeiro; materiais recicláveis e rejeito.

Como funciona na prática?
Mercado Evolua: o primeiro mercado lixo zero do DF
Foto: Lis Cappi

Inaugurado em junho de 2019, na Quadra 409 Norte, o Mercado Evolua chegou com uma proposta inovadora em Brasília: ser o primeiro mercado lixo zero. Adeptas ao pensamento de descarte mínimo, as sócias Flávia Attuch e Marta Liuzzi, decidiram abrir um espaço de vendas de alimentos e produtos pessoais à granel, em que tudo o que chega e sai não provoca o gasto de novos materiais.
Grãos por quilo, retirados em vasilhas próprias, ou ao adquirir recipientes de vidro que podem ser reutilizados posteriormente; produtos de beleza naturais, feiras de orgânicos e objetos de uso cotidiano em versões ecológicas – como fraudas de pano, coletores menstruais e canudos reutilizáveis – são algumas das opções encontradas expostas pelo local.
"Aqui dentro a gente trabalha tudo sem embalagem, e com compostagem. A gente brinca que o mercado não é só lixo zero, mas lixo positivo. Porque a gente recebe da população todos os recicláveis", afirma Flávia Attuch. Na área externa próxima ao Evolua, existem pontos de reciclagem: de plástico, papel, lixos eletrônicos, orgânicos e vidro. Saiba mais sobre o que motivou a construção do local pelo vídeo: