Quando a vontade em
fazer diferente começa pela comunidade
Moradores do Distrito Federal começaram a implantar mudanças de cuidado com o lixo por conta própria. Conheça um pouco do trabalho feito na Quadra 113 Sul e no Jardim Botânico, e os impactos que as ações trouxeram para catadores
Dez toneladas de rejeito deixando de ir para o aterro sanitário do Distrito Federal. Essa é a quantidade que os moradores da Quadra 113, da Asa Sul, desviam do deposito de lixo na Samambaia todos os meses. Em um processo que mobiliza 11 prédios residenciais, e aproximadamente 1.200 pessoas, todo o tipo de resíduo produzido na Quadra recebe algum direcionamento: dos orgânicos até ao vidro.
O trabalho da comunidade começou em 2018, quando algumas das moradoras participaram do Congresso Internacional Cidades Lixo Zero. Na época, tiveram uma conscientização em torno da importância em se ter o devido cuidado em relação ao descarte e como estava a problemática no DF, com o recente fechamento do lixão, e decidiram agir. Fundaram uma prefeitura na Quadra e, após analisar as opções para os blocos, contrataram um serviço para reciclar os vidros descartados pelos moradores, fazendo o envio do material para São Paulo. A grande quantidade recolhida chamou a atenção e estimulou o início de novas ações.
No final de 2019, pouco mais de um ano depois, a Quadra tem uma parceria com uma cooperativa, que recolhe três vezes por semana todos os materiais recicláveis ali produzidos (alumínio, isopor, garrafa pet, madeira, papel, papelão e plástico), continua pagando pela reciclagem de vidros, que no DF seriam encaminhados para o aterro, e direciona os materiais orgânicos da maior parte dos prédios para um processo de compostagem. No fim, sobra o rejeito. Pouco material que não pode ser reciclado e não tem mais serventia, e é então encaminhado para o aterro sanitário.
O serviço de compostagem feito na quadra é por meio de recolhimento, e tratamento, particular. A intenção da prefeitura é que os materiais fertilizantes que forem produzidos pelos restos de alimento dos moradores sejam entregues para Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs), e que em contrapartida, os pequenos agricultores que receberem os fertilizantes possam oferecer alimentos orgânicos a preços mais baixos para os moradores da Quadra. Para 2020, os moradores planejam ampliar as ações de descarte adequado também para o comércio.
Foto: Bernardo Paixão
Prefeitura da Quadra 113 Sul
O trabalho na Quadra é conduzido por Rosemary Lacerda (esq.), e Rachel Andrade (dir.), vice-prefeita e prefeita da Quadra, respectivamente. E recebe apoio de síndicos, moradores e funcionários dos prédios.
As duas foram juntas ao Congresso Internacional Cidades Lixo Zero em 2018, e relatam que no local descobriram mais sobre a importância do descarte adequado. Durante o período de implantação, receberam apoio do Instituto Nacional Lixo Zero e da Organização Não-Governamental WWF-Brasil.

SAIBA MAIS SOBRE A IMPLANTAÇÃO DO PROJETO:
O caso do Jardim Botânico
O bairro brasiliense que traz no próprio nome a relação com a natureza tem se destacado em relação a coleta seletiva. Apesar de não receber caminhões do SLU para recolhimento de materiais recicláveis, parte dos condomínios da cidade fizeram, por conta própria, parcerias com cooperativas para garantir uma destinação adequada para os resíduos.
Na cidade, uma outra mobilização traz auxílios para este processo: o Movimento Comunitário do Jardim Botânico, em que moradores voluntários se organizam para atender as demandas da comunidade. Entre elas, a questão ambiental.
Em 2019, essa perspectiva tomou ainda mais forma na Região Administrativa. Foi tema da Feira Ambiental realizada em setembro. Na ocasião, a embaixadora do Lixo Zero em Brasília, e uma das atuantes do movimento Comunitário, Luciana Souza, divulgou a meta de tornar o Jardim Botânico uma cidade Lixo Zero em 2025. Confira:
Além do impacto positivo em relação ao meio ambiente, Luciana Souza destaca a importância social em que os cuidados com o descarte podem ser relacionados. Ela garante que as relações entre a comunidade do Jardim Botânico melhoraram após a implantação de atividades voltadas à ecologia na cidade, e defende a adoção do Lixo zero como uma meta para a cidade. Assista mais sobre o assunto nos vídeos a seguir:
O que dizem os catadores?
Nós, catadores do DF, voltamos a sonhar. Voltamos a sonhar em ter uma vida melhor, a dar uma vida melhor para os nossos filhos. Sei que no início teve muita resistência, no início sempre tem. Mas com o passar do tempo teve uma melhora significativa para as cooperativas. Um crescimento muito grande”, Cristiane Pereira, Associação Recicla Mais Brasil.
O trabalho da Associação Recicla Mais Brasil começou em 2017 no Jardim Botânico. Na época, o grupo de catadores atendia a um condomínio da Região Administrativa. Atualmente, são nove. O trabalho dos participantes da associação consiste em recolher os resíduos acumulados pelos moradores e fazer campanhas de conscientização sobre o descarte adequado.
O início do trabalho da associação foi em 2011, quando um grupo de catadores que fazia o trabalho com reciclagem por conta própria decidiu se unir. Oito anos depois, chegaram os resultados: os associados conseguiram pegar contratos com o SLU, fazer parcerias e, atualmente, ter uma das maiores rendas como catador no Distrito Federal, de um salário mínimo e meio.
A presidente da associação, Cristiane Pereira, não disfarça o sorriso e satisfação ao contar sobre os resultados alcançados do grupo. "Melhorou bastante para os catadores que estão com a gente. Antes, quando a gente ia em um mercado, por exemplo, fazer uma compra, a gente queria comprar e não dava. E hoje não. Hoje a gente tem o orgulho de ver. Ir fazer a minha compra, chegar no mercado e pegar um carrinho, e fazer aquela compra do mês... Isso é muito gratificante, sabe?", compartilha. "É por isso que eu digo, se você pode fazer a coleta seletiva em casa, faça. Isso muda vidas", completa.
Além da associação, a cooperativa Ecolimpo, com sede de atuação em São Sebastião, atende um dos condomínios do Jardim Botânico. O trabalho do grupo começou em 2012 de uma maneira diferente. do convencional A cooperativa foi fomentada por uma incubadora, do Instituto Ecoanama.
Fotos: Lis Cappi

Alguns dos catadores da cooperativa Ecolimpo. À direita, um casal de refugiados venezuelanos que foram abraçados pelo grupo

A cooperativa Ecolimpo tem sede em São Sebastião. Atua na cidade, no Jardim Mangueiral e no Jardim Botânico

Cristiane Pereira coordena o trabalho da associação Recicla Mais Brasil

Alguns dos catadores da cooperativa Ecolimpo. À direita, um casal de refugiados venezuelanos que foram abraçados pelo grupo
Na época, não havia nenhuma cooperativa na região, por isso, o Instituto mobilizou pessoas que tivessem interesse em atuar como cooperados. Quem coordenou essa etapa, e ainda está a frente do trabalho, foi João Santana. Ele já atuava como catador de maneira autônoma, e buscou encontrar outras pessoas para montar um grupo e estruturar melhor a atuação.
Com apoio da Administração de São Sebastião, o grupo, inicialmente com sete pessoas conseguiu se estruturar. Sete anos depois, o grupo dobrou. E sem apoio do Instituto, foram selecionados em um edital do Sistema de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU) para tratar parte da coleta recolhida em residências do DF, e também fazer o trabalho de busca e tratamento em locais em que os caminhões do SLU não passam.
O coordenador da cooperativa reforça a importância do suporte governamental, ou de empresas, para uma boa execução das ações da cooperativa. "Só o material não é o suficiente para manter a cooperativa. Ele não paga o suporte operacional. Se a gente dividir para todo mundo, não se paga. Então é fundamental que a iniciativa privada e o governo dêem esse suporte para que a gente possa fazer o trabalho. Tendo condições, a gente consegue dar uma destinação adequada ao material", explica Santana.
Os cooperados da Ecolimpo recebem, em média, R$ 700,00 por mês, com o recolhido em São Sebastião, 16 condomínios do Jardim Mangueiral, e um do Jardim Botânico. Apesar da grande quantidade de um trabalho com resíduos, o coordenador da cooperativa ressalta que o maior impacto do trabalho é na condição de vida dos catadores. "Nosso produto não é material, nosso produto são pessoas. Trabalhamos com gente e transformando vidas. A gente não transforma só o processo, a gente transforma vidas", diz. Saiba mais detalhes sobre a história do grupo no vídeo abaixo: